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Dos games às apostas online: impacto no SUS supera R$ 30 bilhões

Escrito por   em 17/09/2026

Carla Xavier tenta se manter longe das apostas online. Para ela, o lazer virou um vício:

“Eu não tinha mais controle de nada. Eu queria sair do meu trabalho pra jogar, eu queria ficar em casa pra jogar, eu não queria fazer absolutamente mais nada, eu só queria jogar. Nem dormir eu queria, eu só queria jogar”.

Diferente do jogo recreativo, onde há limites claros de tempo e dinheiro, a ludopatia transforma a aposta em uma necessidade compulsiva. Experiência também já vivida por Rodrigo.

“Porque o jogador compulsivo, quando ele está ganhando, ele quer ganhar mais. Quando ele está perdendo, ele quer recuperar. Então, na verdade, a gente costuma falar que ele quer jogar. Então ele joga até o fim”. 

Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), o impacto financeiro por causa dos danos à saúde provocados pelas apostas online no Sistema Único de Saúde (SUS) é de R$ 30,6 bilhões por ano. Nessa conta entram as despesas com tratamentos de depressão, ansiedade e impactos causado pelas mortes por suicídio.

▶️ Esta reportagem é parte da série especial sobre jogos eletrônicos e apostas online do radiojornalismo da Rádio Nacional, publicada diariamente, de 14 a 18 de setembro, pela Radioagência Nacional. Ouça e baixe todo o material aqui.

Apenas 1% do valor arrecadado das operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para minimizar esses danos.

Nos últimos cinco anos, foi registrado um aumento de 140% na busca por atendimento no SUS por causa da dependência de apostas online e jogos de azar.

Segundo o diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, o aumento foi registrado em toda a Rede de Atenção Psicossocial. Com foco nessa procura, foi lançado o serviço de teleatendimento voltado para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas.

“Desde fevereiro deste ano, quando nós criamos uma porta de entrada para atendimentos a jogos e apostas de forma eletrônica, nós tivemos uma procura de 20 mil pessoas que se cadastraram após fazerem um autoteste, e o autoteste sugerir que essas pessoas devem procurar ajuda”.

Para Marcelo Kimati, o apostador compulsivo vive em um mundo digital, o que cria uma barreira de acesso para o atendimento físico. Por isso a importância de uma porta também digital. 

“Pessoas que têm problemas com jogos e apostas dificilmente eles se adequam ou se adaptam a uma rotina de triagem de entrada na rede de atenção psicossocial. Elas vivem dentro de um universo em que elas estão muito frequentemente imersas num mundo digital, e o acesso a essa rede física implica, muitas vezes, em uma mudança de rotina que elas não conseguem operar naquele momento da vida”.

Plataforma de autoexclusão

O diretor de saúde mental do Ministério da Saúde diz que outro indicativo do problema com jogos e apostas vem da plataforma de autoexclusão, lançada pelo Ministério da Fazenda.

Foram bloqueados mais de 5 milhões de CPFs a sites de apostas online autorizados. Além de atingir beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e pessoas em programas de renegociação de dívidas, mais de 1 milhão de usuários pediram autoexclusão voluntária. Nesse último caso, quase a metade alegou problemas de saúde mental relacionados as apostas, como ressalta Marcelo Kimati.  

“Nós tivemos mais de um milhão de pessoas que se autoexcluíam ao longo desses últimos meses e cerca de 40%, entre 35% e 40% das pessoas que se autoexcluíram fizeram isso por alegarem problemas de saúde mental relacionados a problemas com jogos e apostas. E essas pessoas precisam de algum tipo de oferta de ajuda e cuidado”.

Uma das pessoas que se autoexcluiu para evitar recaídas foi Gustavo Pereira, do Café do Guga. Ele mora em Lages, Santa Catarina, e foi diagnosticado com ludopatia. Gustavo acumulou, durante seis anos, uma dívida de R$ 500 mil. Detalhes: ele tem apenas 24 anos. 

“Tive várias recaídas nesse processo, até chegar o momento da autoexclusão da plataforma. Pode-se dizer que essa ferramenta salvou minha vida. Eu vivo outra vida, eu recuperei minha autoestima, recuperei a coragem de olhar nos olhos das pessoas”.

Dois documentos, entre eles um guia, orientam a rede atenção psicossocial sobre como atuar clinicamente e, também, o cuidado integral – o que inclui maior qualificação da rede de atenção.

“Hoje nós temos mais de 12 mil pessoas que se inscreveram para realizar um curso autoinstrucional que é realizado em parceria com a Fiocruz de Brasília, e nós já temos um grande número de pessoas que completou este curso. Então, na verdade, ainda que não exista um protocolo de funcionamento da rede de atenção psicossocial, existe uma linha de cuidado que é bastante consistente em dizer qual a função de cada ponto da rede”. 

O acesso ao teleatendimento é feito pelo aplicativo Meu SUS Digital e está disponível também para os familiares. O serviço é sigiloso e permite o acesso à assistência especializada a distância.

Na próxima reportagem: a busca por ajuda para se livrar do vício.

 

Créditos

Reportagem: Ana Lúcia Caldas

Edição: Paula de Castro

Produção: Luciene Cruz

Sonoplastia: Egberty Martins

Edição web: Sumaia Villela

 



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